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Ricardo Jorge Claudino

Escritor, poeta de poemas e pensante

Escritor, poeta de poemas e pensante

Ricardo Jorge Claudino

11
Set20

Ser casa

ricardojorgeclaudino

Tenho duas casas paralelas
aconchegando-me em tempos paralelos;
é como se uma estivesse abraçando o céu
e a outra beijando raízes profundas na terra.
Na linha ténue desenhada pelo horizonte
quase que ambas se tocam, mas o quase
é algo que não chegou a ser; é a miragem
que relança questões para além do incerto.
Bem sei que sou a perpendicularidade
entre cada uma delas. Por isso fecho os olhos,
estendo os braços, e com uma casa de cada lado
deixo que os caminhos sejam traçados
nas linhas escritas por cada passo,
por cada enlace e por cada momento.

monum_37_5579612334ee3b883cf7ef.jpg

Imagem de montesdoalentejo.blogspot.com

10
Set20

Sessão de autógrafos - A Cor Do Tempo

ricardojorgeclaudino

Ricardo Jorge Claudino, o poeta que também é programador informático, acaba de lançar o seu primeiro livro intitulado “A Cor Do Tempo” e vai estar este domingo, dia 13 de setembro, a partir das 14h, a autografar a sua obra na Feira do Livro de Lisboa, no stand B31 da editora Cordel d'Prata.


É o momento de descobrir qual a cor do tempo e só a poesia pode reflectir sobre este tema. São 60 poemas inquietantes que resultam de pensamentos, questões intemporais e alguns episódios autobiográficos. A cor preenche o tempo de cada um de nós.” — Este é o repto que o autor pretende lançar ao leitor.


O autor faz uma viagem pelos três tempos — passado, presente e futuro — através de uma poesia bastante sensorial que vai muito além do bater de teclas no seu dia-a-dia como programador. Como fonte de inspiração há referências a elementos da natureza, pessoas e locais tão distintos como sua cidade natal (Faro), a origem dos seus antepassados (Reguengos de Monsaraz), locais onde estudou (Beja e Lisboa) e para onde emigrou (Amesterdão, Países Baixos).


Atualmente, o livro “A Cor Do Tempo” encontra-se disponível para venda na Feira do Livro de Lisboa, no stand B31 da editora Cordel d'Prata, ou através do website: https://cordeldeprata.pt/livraria/a-cor-do-tempo/ .

 

SINOPSE
Quando perguntam qual a minha cor preferida,
enrolo todas as palavras; e descrevo-a.

Gosto de me sentar à sombra do calor
e sentir o vento - mesmo que seja apenas
o assobio de um rouxinol apaixonado.
Gosto de me embeiçar pela imprevisibilidade
e contar quantas formigas correm
atrás de uma migalha de pão.
Gosto de passear pela calçada portuguesa
e pisar somente as pedras mais escuras,

as que formam um padrão.
Gosto de conduzir vagarosamente,
sobretudo em horas de ponta,
e escutar as buzinas de quem vive,
constantemente,
no «modo sobressalto».

Não sei se é daltonismo ou não
mas só distingo a cor do tempo.

 

28
Ago20

Reencontro

ricardojorgeclaudino

Conhecer lugares

conquistar o mundo

ser dono de tudo

descansar deitado

para sempre

— ser nada.

 

quando te olhei

estavas sentado — esperando —

e nesse gerúndio,

do teu lugar que é meu,

apenas me resta a chaminé

que perfumou para sempre

as ruas da minha infância.

 

Nada pode tirar

o que a vida deu.

Pode-se ser feliz

onde nunca se foi.

 

Conhecer lugares, conhecer lugares e mais lugares!

A filosofia de um adulto tem como base a ganância;

por isso os melhores filósofos são as crianças.

 

Ser um adulto ganancioso

esperando acabar no lugar

que sempre me conheceu.

reencontro.pngImagem de i.pinimg.com

12
Ago20

Arqueologia do Tempo

ricardojorgeclaudino

Desenterra-se o tempo
escondido debaixo da terra
porque na superfície estamos exaustos.

Nunca vi quem tanta esperança
depositasse no passado:
tu, eu, nós e eles; todos,
os que se perderam sem nunca
se terem encontrado.

A arqueologia de nós próprios
é uma viagem até ao fundo
do que suspeitamos ser.

Sabemos quem fomos? Na verdade,
há muito que se contam histórias
sobre as planícies revestidas
por este manto sagrado.

Quando uma estrutura do Neolítico
brota numa era contemporânea
há uma ligação histórica comovente;
pensar que durante séculos
as nossas pegadas ali ficaram.

Somos várias camadas;
vivemos no tempo que decorre
e tudo o que estiver para além do agora
será a futura descoberta de quem fomos.

09
Ago20

Na ceifa, cantando

ricardojorgeclaudino

A ceifeira canta com sua branca tez,

alegre, no primeiro dia de labor;

canta mágoas fingidas sobre o tempo

só o futuro lhe concederá louvor.

 

O dia alto e o trigo iluminado

ecoam calor pelos campos fora;

pobre ceifeira que na ceifa cantando

lembra o amanhã, batalhas de outrora.

 

Vestes de cores floridas,

ar fresco, paisagem serena;

pobre ceifeira que na ceifa cantando

deu-lhe o sol, ficou morena.

 

Hoje, são as máquinas

que ceifam a seara herdada:

desta evolução que nos faz ser mais

 e ter a ceifeira para sempre recordada.

 

Podemos afirmar com grande à-vontade:

— Foi o cantar da ceifeira a razão

em haver tão próspera actualidade.

ceifeira.pngFotografia de Artur Pastor - "Ceifeira" (the Reaper) 1944-46 em br.pinterest.com

30
Jul20

O destino das estrelas

ricardojorgeclaudino

De noite,
pelas aldeias e pelos campos,
apagam-se as luzes
que dantes não existiam.

Daqui,
graças ao real escuro da noite,
há um reencontro
entre a minha pele
e a luz esbatida das estrelas
— que me falaram há milhṍes de anos-luz atrás.

Daqui,
onde as distâncias são intermináveis,
avisto um dos céus mais estrelados da Europa;
e deixo-me estar, calado mas atento,
à altura do meu insignificante tamanho.

Muito longe daqui,
onde as grandes cidades lampejam
como árvores de natal esquecidas no verão,
há gente com tudo
e há um céu cheio de nada.

Tal como nós,
as estrelas nada decidem sobre a sua nascença
mas após a sua existência
continuam a reluzir nos céus
para que aqui, hoje,
no futuro que foi delas,
as pudéssemos contemplar.

04
Jul20

Reguengos de Monsaraz

ricardojorgeclaudino

Todos os noticiários do país ditam o teu nome.

Ainda o jornalista vai a meio da sílaba "guen"

e eu já estou arrepiado, de olhos esbugalhados,

seguindo a origem do som.

 

Aumento o volume da televisão,

talvez na esperança de escutar a paz da natureza

que circunda o entrevistador e o entrevistado

junto à Praça da Liberdade.

 

Tanto para contar, nada para dizer.

Desde quando a ida do Sr. José ao mercado municipal

é notícia que se dê?

E as trinta e muitas olarias que hoje, tal como sempre,

moldam o tempo em barro de água?

E as estrelas que brilham para um dos céus

mais transparentes que pode haver?

E o monte fortificado que alimenta sua vaidade

no reflexo das águas do grande lago?

Segundo a lenda, quem edificou a igreja de São Marcos?

Há quantos mil anos foi elevada a rocha dos namorados?

 

Desde quando tudo isto é notícia que se dê?

21
Jun20

O lenço

ricardojorgeclaudino

O lenço preto na cabeça

não tem significado

apenas quer ser lembrado

com medo de quem se esqueça.

Ninguém merece perder;

merino negro, penumbra no cabelo.

Às pintas ou às cores é possível vê-lo

no labor do campo, ao amanhecer.

 

Sol abraça o lenço,

tez queimada pelo tempo,

beijo eterno momento.

31
Mai20

Ode ao Alentejo

ricardojorgeclaudino

Pela planície, pelas espigas, pelo céu que estende,

Pelos campos, pela luz, pelas casas de branca cal,

Pelo calor, pelos montes, pela sorte que depende,

Do barro que molda o pão, do cante patrimonial!

 

Pelas horas, pelo dia, pelos caminhos da história,

Pela monda, pelas ceifeiras, pelo sol que se levanta,

Pelos melros, pela perdiz, pelas asas da glória,

Quem eleva suas dores de orgulho se encanta!

 

— Ó paz; és silêncio na hora da calma,

És a voz altiva do chaparro cantante,

És a abençoada sombra no calor da alma.

 

— Ó gente; que suspira de amor verdadeiro,

Que ora perto ou distante vive com saudade,

De ter o Alentejo de novo, por inteiro.

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