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Ricardo Jorge Claudino

Escritor, poeta de poemas e pensante

Escritor, poeta de poemas e pensante

Ricardo Jorge Claudino

11
Jan21

Umm Gazala

ricardojorgeclaudino
(Poema do livro "A Cor Do Tempo")
 
Medievalmente vi
uma fortaleza no cume
de uma encosta dourada
que desde a estrada
me fez quedar ali.
 
O sistema de coordenadas
além apontava:
Hoje Espanha,
antes o limite da Lusitânia,
8 milhas a sul do Guadiana.
 
Parei o tempo;
que bom ficar no presente
enquanto o cheiro das searas
me contam histórias raras
desta gente.
 
Há uma lenda que cita
Viriato, chefe dos Lusitanos;
deixou aqui a sua vida,
numa batalha só de ida,
contra os Romanos.
.
Do guerreiro lendário
não se conhece verdade,
mas vou lançar um boato:
A metáfora da sua morte
foi cair de amores por esta beldade.
 

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23
Out20

A sombra e o chaparro

ricardojorgeclaudino

A sombra do vento

cai sobre o chaparro;

fico com a sensação

de que o calor, exausto,

se deu por vencido.

Apenas aqui me sento

porque um alentejano

só se senta para pensar.

 

O vento sopra

e a sombra abraça-me.

 

Penso em negar-lhe o momento;

atroz este meu pensamento

que espera sempre mais

de quem dá menos.

 

Talvez tenha sido uma má escolha;

— mea-culpa,

há mais chaparros nesta terra e

as escolhas passam a ser histórias

(e as histórias, um dia, serão vida).

Mas aqui, e agora:

só me apetece pensar.

 

Suavemente, assim como um sopro

que acalenta os ramos deste chaparro,

o erro faz-se soar;

desde a minha própria sombra

escuto a voz que me quer guiar.

 

É o vento,

é a terra,

é a natureza,

é o amarelo,

é a luz e a penumbra

e é, também, este chaparro.

 

Graças à desertificação deste lugar

os meus olhos desenham uma planície sem obstáculos.

Não há prédios, casas, ruas ou estradas;

não há pessoas, carros, caos ou nada.

 

Na verdade,

sei que anda por aí um pastor;

apesar de não o vislumbrar,

o som cintilante dos chocalhos

dança ao ritmo do cajado que

solenemente bate no chão.

 

Como é aconchegante estar rodeado de nada!

Sem paredes, sem ouvidos,

— só estar aqui me basta.

 

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Fotografia de Daniel Janeiro

21
Ago20

Sapateiro

ricardojorgeclaudino

Mestre sapateiro

sediado em terra singela;

martelo na sola,

martelo ao sol,

mão que segura a sovela

conduz o cerol.

 

Avental posto

conforta o sapateiro;

formas de madeira,

curvas formosas,

desenho de um roteiro

trilhado pelas suas costas.

 

É o peso do final do labor;

sim, a dor que ele carrega

a fome supera,

— mais forte é o amor

na casa que o espera.

 

São caminhos,

rumos e encruzilhadas;

são solas que

por esta estrada fora

seguem imortalizadas

em pegadas de outrora.

 

De regresso,

já com os sapatos na mão,

esquecemos quem somos

e voltamo-nos a calçar.

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Fotografia de Eidia Dias

09
Ago20

Na ceifa, cantando

ricardojorgeclaudino

A ceifeira canta com sua branca tez,

alegre, no primeiro dia de labor;

canta mágoas fingidas sobre o tempo

só o futuro lhe concederá louvor.

 

O dia alto e o trigo iluminado

ecoam calor pelos campos fora;

pobre ceifeira que na ceifa cantando

lembra o amanhã, batalhas de outrora.

 

Vestes de cores floridas,

ar fresco, paisagem serena;

pobre ceifeira que na ceifa cantando

deu-lhe o sol, ficou morena.

 

Hoje, são as máquinas

que ceifam a seara herdada:

desta evolução que nos faz ser mais

 e ter a ceifeira para sempre recordada.

 

Podemos afirmar com grande à-vontade:

— Foi o cantar da ceifeira a razão

em haver tão próspera actualidade.

ceifeira.pngFotografia de Artur Pastor - "Ceifeira" (the Reaper) 1944-46 em br.pinterest.com

13
Abr20

Cem dores

ricardojorgeclaudino

Trago na mochila um caderno com cem páginas

e só cinco estão escritas. Sinto a cabeça

pesada e as costas leves. Nem quero

imaginar o dia em que chegar às noventa

e cinco páginas escritas de pensamentos vãos.

Talvez a tinta da esferográfica não torne

o caderno mais pesado. Talvez a

cabeça não fique mais leve à medida que

escrevo estes meus pensamentos

supérfluos. Tudo em mim nasce na

esferográfica e habita neste caderno.

Tudo, excepto a dor que sinto nas costas.

09
Mar20

As oliveiras falam

ricardojorgeclaudino

As oliveiras falam através do tempo.

Não é por isso que as invejo;

é, sim, por terem passado 

por tanto ou tão pouco,

sem nunca moverem raízes.

 

Escuto-as

sem pressa de abalar.

 

Ramos milenares sustentam 

os mais atrevidos pássaros cantantes;

A mando de quem vieram 

para me agoirar?

 

Nesse instante 

o tempo faz-se. 

 

Percebo que tudo é parte da melodia.

Os pássaros, as galinhas, os perus, 

os cães, os porcos, os leitões, as ovelhas, 

nós e tu. 

 

Enquanto a vida acontece,

o vento embala as folhas pontiagudas 

e faz soar o toque que faltava. 

Melancolicamente escuto 

a mais harmoniosa sinfonia.

 

Pergunto-me,

são vozes intemporais?

são séculos e milénios imortais?

são histórias que os livros não nos contam?

são poesias?

 

Não preciso serrar um tronco e contar

os anos que descortinam a sua idade,

velhice não é experiência,

é apenas a sabedoria da efemeridade.

 

Por favor, traduzam-me 

as palavras sábias deste olival.

E rápido… 

antes que a música acabe,

antes que o tempo termine sem cor.

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04
Fev20

Só, mas bem acompanhado

ricardojorgeclaudino

Observa este pôr do sol;

o melhor que vimos

até hoje.

 

Avisa-me com exatidão

sobre a chegada do momento

que merece ser capturado

em prol desta recordação.

 

Guardá-lo

seria a melhor desculpa

para que haja futuro

− e para mais tarde o recordar.

 

Explica-me, por favor, 

como esse teu alento

tão efémero quanto o vento

criou no céu

aquelas manchas de vapor?

 

Deus tirou-me o momento

para que na penumbra 

o pudesse contemplar

e tornar-me visível

aos olhos 

de quem me crê.

 

Naquele instante não te quis entender

mas continuei a acreditar em ti.

 

Daqui eu sei

qu’este horizonte é tela pintada 

pelas tuas mãos frias,

tons quentes,

maresias.

 

Tiro mais uma fotografia 

− a última do dia,

e espero que renasças

para te voltar a eternizar.

 

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