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Ricardo Jorge Claudino

Escritor, poeta de poemas e pensante

Escritor, poeta de poemas e pensante

Ricardo Jorge Claudino

13
Abr20

Cem dores

ricardojorgeclaudino

Trago na mochila um caderno com cem páginas

e só cinco estão escritas. Sinto a cabeça

pesada e as costas leves. Nem quero

imaginar o dia em que chegar às noventa

e cinco páginas escritas de pensamentos vãos.

Talvez a tinta da esferográfica não torne

o caderno mais pesado. Talvez a

cabeça não fique mais leve à medida que

escrevo estes meus pensamentos

supérfluos. Tudo em mim nasce na

esferográfica e habita neste caderno.

Tudo, excepto a dor que sinto nas costas.

09
Mar20

As oliveiras falam

ricardojorgeclaudino

As oliveiras falam através do tempo.

Não é por isso que as invejo;

é, sim, por terem passado 

por tanto ou tão pouco,

sem nunca moverem raízes.

 

Escuto-as

sem pressa de abalar.

 

Ramos milenares sustentam 

os mais atrevidos pássaros cantantes;

A mando de quem vieram 

para me agoirar?

 

Nesse instante 

o tempo faz-se. 

 

Percebo que tudo é parte da melodia.

Os pássaros, as galinhas, os perus, 

os cães, os porcos, os leitões, as ovelhas, 

nós e tu. 

 

Enquanto a vida acontece,

o vento embala as folhas pontiagudas 

e faz soar o toque que faltava. 

Melancolicamente escuto 

a mais harmoniosa sinfonia.

 

Pergunto-me,

são vozes intemporais?

são séculos e milénios imortais?

são histórias que os livros não nos contam?

são poesias?

 

Não preciso serrar um tronco e contar

os anos que descortinam a sua idade,

velhice não é experiência,

é apenas a sabedoria da efemeridade.

 

Por favor, traduzam-me 

as palavras sábias deste olival.

E rápido… 

antes que a música acabe,

antes que o tempo termine sem cor.

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04
Fev20

Só, mas bem acompanhado

ricardojorgeclaudino

Observa este pôr do sol;

o melhor que vimos

até hoje.

 

Avisa-me com exatidão

sobre a chegada do momento

que merece ser capturado

em prol desta recordação.

 

Guardá-lo

seria a melhor desculpa

para que haja futuro

− e para mais tarde o recordar.

 

Explica-me, por favor, 

como esse teu alento

tão efémero quanto o vento

criou no céu

aquelas manchas de vapor?

 

Deus tirou-me o momento

para que na penumbra 

o pudesse contemplar

e tornar-me visível

aos olhos 

de quem me crê.

 

Naquele instante não te quis entender

mas continuei a acreditar em ti.

 

Daqui eu sei

qu’este horizonte é tela pintada 

pelas tuas mãos frias,

tons quentes,

maresias.

 

Tiro mais uma fotografia 

− a última do dia,

e espero que renasças

para te voltar a eternizar.

 

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