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Ricardo Jorge Claudino

Escritor, poeta de poemas e pensante

Escritor, poeta de poemas e pensante

Ricardo Jorge Claudino

18
Set20

As voltas de um ciclo

ricardojorgeclaudino

I - 1960’s


O Alentejo é uma imensidão de gente.
Do litoral ao interior,
em cada casa, em cada aldeia,
há vida que canta alegre e arduamente.


A grande metrópole inveja a simplicidade.
Os feriados de cada terra
dançam até de madrugada,
no baile e na festa celebra-se a felicidade.


II - 1980’s

O Alentejo ainda é uma imensidão de gente.
Esta gente faz planos
em prol da terra mãe,
a mesma que um dia brotou a sua semente.


A grande metrópole ainda inveja a simplicidade.
Cavaleiro citadino de espada na mão
deseja trespassar a alma do aldeão,
falha o coração, regressa à cidade.


III - 1990’s

O Alentejo começa a perder gente.
A tortura dos mais velhos
é ver os novos abalarem lentamente;
ninguém nota, pouco se sabe, tudo se sente.


A grande metrópole não inveja a simplicidade.
Tem um número invejável de soldados,
cansados, desmoralizados;
erra ao pensar que o número faz a totalidade.


IV - 2020’s


O ciclo desenha o progresso;
desconhece-se o ponto inicial,
o fim é temporário,
certo é o nosso regresso.

16
Set20

Poemas para a hora de ponta - Joaquim Saial

ricardojorgeclaudino

Hoje decidi escrever uma publicação diferente, sem falar sobre mim ou sobre os meus textos.

Hoje tirei o dia para falar do livro de poesia de Joaquim Saial - "Poemas para a hora de ponta", o qual tive o prazer de ler e reler.

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O livro é composto por 40 peças (poemas) que contêm muito "dramatistmo, humor e sarcasmo". É um livro que vale pelo seu todo e isso, para mim, é o mesmo de dizer que começo a leitura na primeira página, desligo-me do exterior, num ápice chego à última palavra do livro, e desconheço quanto tempo passou. Assim são ou deveriam de ser os minutos de uma hora de ponta.

Bem sei que é muito redutor escolher apenas um excerto do livro para vos mostrar, mas aqui vai:

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SINOPSE

“Poemas para a hora de ponta” apresenta-nos 40 peças que oscilam entre o documental e o fantástico, lirismo discreto e momentos de dramatismo, humor e sarcasmo. É num antigo e assumido gosto do autor pelos textos intensamente americanos de Sam Shepard (sobretudo da sua poesia) e na poética da música (Dylan, Neil Young…), para além da inspiração oferecida por portugueses como Mário-Henrique Leiria, que reside a origem desta variada e sedutora panóplia de produções.

A ode primeira, que faz jus ao título do livro, é acertada abertura para uma poesia de índole urbana (algo lisboeta) em que o autor, uma vez por outra, surge como narrador. Porém, percebe-se que prefere apresentar ao leitor a maior parte das peças como anónimos painéis de fruição, em registo quase cinematográfico, que prendem e fascinam.

Os notáveis desenhos de João Ribeiro entrelaçam-se magistralmente no universo poético que Joaquim Saial nos traz, fazendo desta uma obra inesperada e assaz convidativa, afinal passível de ser lida a qualquer hora… até na hora de ponta.

 

Caso esta obra desperte o vosso interesse, aqui deixo o link do Livro disponível no site da WOOK.

 

11
Set20

Ser casa

ricardojorgeclaudino

Tenho duas casas paralelas
aconchegando-me em tempos paralelos;
é como se uma estivesse abraçando o céu
e a outra beijando raízes profundas na terra.
Na linha ténue desenhada pelo horizonte
quase que ambas se tocam, mas o quase
é algo que não chegou a ser; é a miragem
que relança questões para além do incerto.
Bem sei que sou a perpendicularidade
entre cada uma delas. Por isso fecho os olhos,
estendo os braços, e com uma casa de cada lado
deixo que os caminhos sejam traçados
nas linhas escritas por cada passo,
por cada enlace e por cada momento.

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Imagem de montesdoalentejo.blogspot.com

10
Set20

Sessão de autógrafos - A Cor Do Tempo

ricardojorgeclaudino

Ricardo Jorge Claudino, o poeta que também é programador informático, acaba de lançar o seu primeiro livro intitulado “A Cor Do Tempo” e vai estar este domingo, dia 13 de setembro, a partir das 14h, a autografar a sua obra na Feira do Livro de Lisboa, no stand B31 da editora Cordel d'Prata.


É o momento de descobrir qual a cor do tempo e só a poesia pode reflectir sobre este tema. São 60 poemas inquietantes que resultam de pensamentos, questões intemporais e alguns episódios autobiográficos. A cor preenche o tempo de cada um de nós.” — Este é o repto que o autor pretende lançar ao leitor.


O autor faz uma viagem pelos três tempos — passado, presente e futuro — através de uma poesia bastante sensorial que vai muito além do bater de teclas no seu dia-a-dia como programador. Como fonte de inspiração há referências a elementos da natureza, pessoas e locais tão distintos como sua cidade natal (Faro), a origem dos seus antepassados (Reguengos de Monsaraz), locais onde estudou (Beja e Lisboa) e para onde emigrou (Amesterdão, Países Baixos).


Atualmente, o livro “A Cor Do Tempo” encontra-se disponível para venda na Feira do Livro de Lisboa, no stand B31 da editora Cordel d'Prata, ou através do website: https://cordeldeprata.pt/livraria/a-cor-do-tempo/ .

 

SINOPSE
Quando perguntam qual a minha cor preferida,
enrolo todas as palavras; e descrevo-a.

Gosto de me sentar à sombra do calor
e sentir o vento - mesmo que seja apenas
o assobio de um rouxinol apaixonado.
Gosto de me embeiçar pela imprevisibilidade
e contar quantas formigas correm
atrás de uma migalha de pão.
Gosto de passear pela calçada portuguesa
e pisar somente as pedras mais escuras,

as que formam um padrão.
Gosto de conduzir vagarosamente,
sobretudo em horas de ponta,
e escutar as buzinas de quem vive,
constantemente,
no «modo sobressalto».

Não sei se é daltonismo ou não
mas só distingo a cor do tempo.

 

28
Ago20

Reencontro

ricardojorgeclaudino

Conhecer lugares

conquistar o mundo

ser dono de tudo

descansar deitado

para sempre

— ser nada.

 

quando te olhei

estavas sentado — esperando —

e nesse gerúndio,

do teu lugar que é meu,

apenas me resta a chaminé

que perfumou para sempre

as ruas da minha infância.

 

Nada pode tirar

o que a vida deu.

Pode-se ser feliz

onde nunca se foi.

 

Conhecer lugares, conhecer lugares e mais lugares!

A filosofia de um adulto tem como base a ganância;

por isso os melhores filósofos são as crianças.

 

Ser um adulto ganancioso

esperando acabar no lugar

que sempre me conheceu.

reencontro.pngImagem de i.pinimg.com

21
Ago20

Sapateiro

ricardojorgeclaudino

Mestre sapateiro

sediado em terra singela;

martelo na sola,

martelo ao sol,

mão que segura a sovela

conduz o cerol.

 

Avental posto

conforta o sapateiro;

formas de madeira,

curvas formosas,

desenho de um roteiro

trilhado pelas suas costas.

 

É o peso do final do labor;

sim, a dor que ele carrega

a fome supera,

— mais forte é o amor

na casa que o espera.

 

São caminhos,

rumos e encruzilhadas;

são solas que

por esta estrada fora

seguem imortalizadas

em pegadas de outrora.

 

De regresso,

já com os sapatos na mão,

esquecemos quem somos

e voltamo-nos a calçar.

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Fotografia de Eidia Dias

18
Ago20

"A Cor do Tempo" - Livro de poesia de Ricardo Jorge Claudino

ricardojorgeclaudino

Hoje tenho o prazer de partilhar convosco duas boas notícias:


1- O meu primeiro livro de poesia está prestes a chegar! "A Cor do Tempo": o título descreve o essencial deste livro. Será publicado pela editora Cordel d'Prata.


2- A poucas semanas do lançamento, a editora nomeou "A Cor do Tempo" para a 2ª edição da Gala dos Autores, nas categorias de "Poesia" e "Prémio Escolha do Autor". As votações decorrem através do link https://cordeldeprata.pt/galadosautores/ e qualquer pessoa pode votar na sua obra favorita.


Muito obrigado a todos os que diariamente me seguem e leem a poesia que partilho nesta página.


Sobre o lançamento do livro, vocês serão os primeiros a saber! 

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12
Ago20

Arqueologia do Tempo

ricardojorgeclaudino

Desenterra-se o tempo
escondido debaixo da terra
porque na superfície estamos exaustos.

Nunca vi quem tanta esperança
depositasse no passado:
tu, eu, nós e eles; todos,
os que se perderam sem nunca
se terem encontrado.

A arqueologia de nós próprios
é uma viagem até ao fundo
do que suspeitamos ser.

Sabemos quem fomos? Na verdade,
há muito que se contam histórias
sobre as planícies revestidas
por este manto sagrado.

Quando uma estrutura do Neolítico
brota numa era contemporânea
há uma ligação histórica comovente;
pensar que durante séculos
as nossas pegadas ali ficaram.

Somos várias camadas;
vivemos no tempo que decorre
e tudo o que estiver para além do agora
será a futura descoberta de quem fomos.

09
Ago20

Na ceifa, cantando

ricardojorgeclaudino

A ceifeira canta com sua branca tez,

alegre, no primeiro dia de labor;

canta mágoas fingidas sobre o tempo

só o futuro lhe concederá louvor.

 

O dia alto e o trigo iluminado

ecoam calor pelos campos fora;

pobre ceifeira que na ceifa cantando

lembra o amanhã, batalhas de outrora.

 

Vestes de cores floridas,

ar fresco, paisagem serena;

pobre ceifeira que na ceifa cantando

deu-lhe o sol, ficou morena.

 

Hoje, são as máquinas

que ceifam a seara herdada:

desta evolução que nos faz ser mais

 e ter a ceifeira para sempre recordada.

 

Podemos afirmar com grande à-vontade:

— Foi o cantar da ceifeira a razão

em haver tão próspera actualidade.

ceifeira.pngFotografia de Artur Pastor - "Ceifeira" (the Reaper) 1944-46 em br.pinterest.com

30
Jul20

O destino das estrelas

ricardojorgeclaudino

De noite,
pelas aldeias e pelos campos,
apagam-se as luzes
que dantes não existiam.

Daqui,
graças ao real escuro da noite,
há um reencontro
entre a minha pele
e a luz esbatida das estrelas
— que me falaram há milhṍes de anos-luz atrás.

Daqui,
onde as distâncias são intermináveis,
avisto um dos céus mais estrelados da Europa;
e deixo-me estar, calado mas atento,
à altura do meu insignificante tamanho.

Muito longe daqui,
onde as grandes cidades lampejam
como árvores de natal esquecidas no verão,
há gente com tudo
e há um céu cheio de nada.

Tal como nós,
as estrelas nada decidem sobre a sua nascença
mas após a sua existência
continuam a reluzir nos céus
para que aqui, hoje,
no futuro que foi delas,
as pudéssemos contemplar.

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